· Barulheira na rua. Calor, muito calor. Risadas, músicas e, todo esse cenário me irrita. Irrita-me porque eu sei que outras pessoas estão se divertindo, jovens como eu em busca de uma noite agitada, de conversas agradáveis, de companhias perfeitas, a verdade é que estão à procura da noite perfeita. O pior é que eles sabem como viver, diferente de mim, que estou agora aqui, na frente do meu computador, tentando (acho que estou conseguindo) expressar esses sentimentos desordenados, impacientes, inquietantes e entediantes. Tudo bem, biologicamente está tudo certo comigo, estou respirando, mas tenho pouca ou quase nenhuma energia que a maioria deles, mamãe sempre diz que sou uma velha no corpo de uma jovem, acho engraçado isso, fico rindo, mas a verdade é que ela está com razão, quase. Não que eu seja chata, uma companhia desagradável, que reclame de tudo ou quase tudo, sou uma ótima companhia, divertida, mas é porque eu não tenho tanta vitalidade para sair todo fim de semana, ficar extasiada quando chega sexta-feira, ligar para todos os amigos para saber onde será hoje, que horas, aonde vamos nos encontrar, essas repetições. Só de pensar já fico cansada. Confesso que faço isso às vezes, até porque não posso viver enclausurada no meu quarto, no meu mundo 24 horas, esquecer de viver, de ser feliz. Adoro sair, ver pessoas, conversar com amigos, está na companhia deles, sorrir. Mas isso são as exceções, os momentos que vem subitamente, a vontade explosiva e a necessidade de expulsar o tédio (“fica um pouquinho quieto, esquece que existo, pois vou sair rapidinho, mas em breve nos veremos”). Eu sei, vivo em conflito permanente comigo mesma: tem dias em que estar no meio dos outros me ajuda, e sinto uma irresistível necessidade disso. Em outros, minha melhor companhia sou eu mesma, meu quarto, minha cama, onde deito de barriga para cima e penso... Talvez escute músicas, assista a um filme, leia, ou como estou fazendo agora, escreva. Sinto-me bem com a cumplicidade desses momentos, eu preciso quase sempre está sozinha. Muitas pessoas ao lerem podem pensar que sou egoísta, que não valorizo as pessoas que verdadeiramente sentem um carinho por mim, “quanta ingratidão” – devem pensar, mas afirmo que a verdade é outra. Não sei se saberei argumentar os motivos, nem eu entendo (essas minhas contradições, sempre desisto de ser lógica), mas vamos lá: amo meus amigos, pouquíssimos, mas que me alegram, pois eu sei que eles estão ao meu lado. Sou uma amiga fiel, verdadeira, que deseja o melhor sempre a eles, torço pela felicidade e sucesso, que estará à disposição quando eles necessitarem. Sou amiga, ausente, mas amiga. Acho que ausente não é termo correto, posso dizer que sou distraída. Cancelar compromissos com eles então, não consigo nem lembrar quantas vezes já fiz isso. Poderia ganhar o Oscar na categoria: “A furona do ano”, mas prometo que não é por maldade, só ocorre. “E o esforço, a amizade, apagastes do teu vocabulário thamyres?” Sem argumentos agora. Mas são uma necessidade meus momentos solitários, sou assim. Mas ainda estou incomodada com toda essa barulheira, pois eu sei que nessa noite alguém está vivendo mais que eu, apesar de ficar bem sozinha, mais mesmo assim irrita, poderia pelo menos afastar a diversão dos meus ouvidos, iria agradecer. E eu? Ah, vou ficar dentro desse quarto ouvindo o som da vida, vou escutá-lo até que o sono me abrace.

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