segunda-feira, 6 de dezembro de 2010


Talvez no meio da multidão ela não pudesse ser ela mesma. Talvez todos os paradigmas, todas as regras, todos os discursos, todo o som que vinha do mundo e a impedia de se ouvir, talvez esse fosse o problema.
Cada grão de areia que seus dedos dos pés moviam a fazia feliz. Queria-os só para ai essa noite, e os teria. Desmanchou o rabo de cavalo, deixou os fios negros se armarem, mas não via problema: ali não precisava agradar ninguém. Não importava se estava bela ou não. Caiu na areia, com um movimento gracioso de menina que brinca. Mas na verdade, ela fazia algo mais sério do que brincar. Ela conseguia ouvir o som do silêncio. O mar vinha e voltava, convidando para um mergulho. A lua cheia chorava sua eterna solidão, mas ela fazia companhia, deitada na areia, rolando de um lado para o outro. Tenho certeza de que essa sou eu. Não tenho medo de ser quem sou, de transparecer, de me mover, de deitar quando estou cansada, de olhar para uma luz pálida e ver nela refletida toda a angústia de meu coração.  Sou corajosa. Entraria nesse mar frio se fosse necessário. Não preciso de amor. A lua me faz companhia. Sou como uma fênix que desmancha em poeira e se reergue, porque a cada passo, a cada coisa que viro, mutante, esse ser obrigado a se transformar para agradar, para ser submisso, para ouvir e não se impor, para sofrer em silêncio e ser alegre no cotidiano. Se eu pudesse, escreveria uma carta e colocaria nessa garrafa e jogaria no mar, só pra dizer às meninas que elas só se descobrem quando param de ouvir o mundo inteiro. Sou essa só para mim mesma, não preciso de ninguém, por que raios o mundo tenta me moldar ao modo dele para que eu seja algo que não sou? O som do silêncio. Esse me faz enxergar cada pedaço de meus cacos quebrados por um mundo que fere. Lindo o mar. Como Deus é maravilhoso ao ter criado tantas belezas. Olhar e ficar pensando, uma paz invade o seu ser e sente que essa é a maneira de viver, de sentir...nesse momento esquece tudo, sua realidade e imagina como seria sua vida se...esse é o problema, se fosse assim. Mas está feliz, serena, pois está vivendo cada segundo desse dia. Desânimo veio avassaldor, hora de ir...voltar para a casa de praia e encontrar o barulho, as risadas, sua família. Quando chegou, ouviu os gritos:
- Você está toda suja, pare de sujar a casa!Vá tomar banho.
E a cada grão de areia que saia de seu corpo, ela foi esquecendo quem era e lembrando de quem devia ser. O barulho do mundo voltou à sua alma e o som do silêncio foi bombardeado pela voz já conhecida da multidão. Deitou na cama quente, questionando quem era ou o quem devia ser.

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